A realidade da morte e a certeza da ressureição

Pe. Inácio Medeiros, C.Ss.R., apresenta as representações históricas da morte e explica os novíssimos da teologia católica, destacando a esperança na ressurreição.
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A morte e o que vem depois podem parecer temas incômodos, mas, para os cristãos, são essenciais: fomos criados para voltar a Deus!

Por mais que o tempo passe e novas explicações científicas sejam acrescentadas, as pessoas não conseguem se acostumar com o ato final da limitação humana: A morte.

A convivência com essa realidade sempre foi desafiadora para as pessoas e, por isso mesmo, paralela à teologia católica. Ao longo dos tempos, surgiram várias formas de se representar a morte. Uma delas, a mais conhecida ainda hoje, que aparece inclusive em pinturas, filmes, livros, sujeita a brincadeiras e representações folclóricas, é a caracterização da morte como um esqueleto que traz uma foice em suas mãos.

A representação da morte

A Peste Negra ocorreu na Europa Medieval do século XIV, matando cerca de 50 milhões de pessoas. Essa pandemia causou um impacto psicológico e social tão grande e o terror das pessoas foi tão forte, talvez somente igualado com o da Pandemia da Covid-19, que passou a se refletir na arte, começando o costume de se ilustrar a morte de uma maneira mais explícita, na forma de um esqueleto representando o corpo humano após a decomposição.

A foice, por sua vez, veio do contexto agrícola medieval por ser a ferramenta usada para colher os grãos das plantações, ceifando os trigais em forma de feixes. A partir daí, passou a simbolizar a morte, “ceifando” vidas como se fossem os feixes que se recolhem nos trigais. A longa túnica ou manto negro remete às vestes associadas a funerais e rituais religiosos, reforçando visualmente a ideia de luto.

Imagem: Wikimedia Commons
Imagem: Wikimedia Commons

Dois temas artísticos ajudaram muito a consolidar essa iconografia da morte e do mal que ela causa. No primeiro, os afrescos intitulados “Triunfo da Morte”, produzidos, sobretudo, na Itália a partir do século XV (1446), figuras esqueléticas avançavam sobre multidões, matando e arrastando pessoas de todas as classes sociais, enfatizando que o fator morte seria inevitável para toda e qualquer pessoa.

Outra representação, chamada de “Dança Macabra”, difundiu-se mais a partir do século XV em murais, cemitérios e manuscritos ilustrados, mostrando esqueletos conduzindo pessoas vivas, de papas a camponeses, como se fosse uma dança, numa longa procissão rumo ao túmulo, reforçando a ideia de um destino comum. Daí, a origem do nome.

Um pouco mais tarde, no período do Renascimento, que entrou pelo século XVI, artistas juntaram em definitivo o esqueleto com a foice numa única figura, fazendo uma associação com Cronos, divindade greco-romana ligada ao tempo, que era representada por uma foice usada como metáfora para o fim de um ciclo.

A mesma ideia foi reaproveitada pela arte cristã para expressar o limite do tempo da vida humana e a necessidade da pessoa usar bem de sua vida, com todas as suas aptidões e dons, para se preparar bem para a eternidade, sem medo ou receio de um possível castigo de Deus com a condenação eterna.

serpeblu / Adobe Stock
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A representação mais conhecida da morte, formada por um esqueleto encapuzado com um manto escuro e uma foice, firmou-se no século XIX. Nesse período, a cor preta se consolidou como cor do luto, tornando-se um código visual amplamente associado à morte, usado inclusive nas vestimentas litúrgicas.

Essa representação pictórica é usada hoje em filmes e em brincadeiras, o que não deixa de ser uma forma de dar mais leveza ao supremo drama da vida humana, do qual ninguém escapa.

Os “novissimus” na Teologia Católica

A Ressurreição de Cristo ilumina com uma luz nova estas realidades cotidianas. A Ressurreição de Cristo é a nossa força!

Papa Francisco

Na doutrina católica, que foi sendo sistematizada ao longo dos tempos, com a contribuição de grandes teólogos como São Tomás de Aquino, que tratou desse tema com rigor filosófico e teológico, principalmente no Suplemento à Terceira Parte da Suma Teológica, os novíssimos (do latim novissimum, “últimas coisas”) são aquelas realidades finais que acontecerão com todo ser humano e com a humanidade como um todo após o fim de sua vida terrena.

Tradicionalmente, a teologia católica resume essa complexa e desafiadora realidade em alguns pontos fundamentais ligados à chamada escatologia cristã:

  •  Morte: Significa o fim da passagem do ser humano na terra e a separação entre a alma e o corpo que, devolvido à terra, torna-se pó novamente.
  •  Juízo: É o julgamento das ações de cada pessoa, podendo ser o juízo particular que sucede logo após a sua morte ou juízo final que acontecerá no fim dos tempos.
  •  Céu, inferno ou purgatório: ao falar do céu, a Igreja está se referindo à união plena e eterna da pessoa com Deus, juntamente com a visão beatífica e a comunhão eterna com todos os santos. O inferno trata-se da condenação ou separação eterna de Deus, escolhida pela recusa da graça recebida no dia do batismo. Por purgatório se compreende o estado de purificação final para as almas que morrem na graça de Deus, mas ainda precisam se livrar de suas imperfeições.
Imgem: Rheinisches Bildarchiv Köln
Imgem: Rheinisches Bildarchiv Köln

Ao propor a realidade dos novíssimos, a Igreja não fala de realidades físicas, como se fossem lugares a serem ocupados, mas de situações que transcendem o tempo e o espaço.

Ao rezar a oração do Credo ou Ato dos Apóstolos, que sintetiza toda a doutrina da Igreja relacionada às últimas coisas, o fiel professa a certeza da ressurreição final para todo ser vivente e o fim do mundo, quando acontecerá a Parusia, entendida como o retorno glorioso de Jesus Cristo no final dos tempos. O teólogo jesuíta Teilhard de Chardin falou de “cristificação do universo”.

No momento imediato da volta triunfal de Jesus Cristo é que se dará a ressurreição dos corpos de todos os seres humanos, unindo-se novamente às suas almas. Então não haverá mais morte ou dor.

Por fim, entende-se o Juízo Final como o julgamento universal em que toda a verdade sobre a história e as obras de cada pessoa será manifestada diante de todos, sem subterfúgios.

Portanto, independentemente de qualquer representação da morte que possa ser feita, por ser sempre limitada e imperfeita, sem medo e sem temor, a melhor forma de sermos merecedores da eternidade feliz junto de Deus, vivendo eternamente na graça de sua presença, é nos prepararmos bem aqui em nossa vida, fazendo sempre “valer a pena”!

Leia também: O que a Igreja ensina sobre céu, purgatório e inferno?

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