França, filha primogênita Igreja

Por que a França é chamada de "filha primogênita da Igreja"? Entenda a origem do título, ligado à conversão de Clóvis I, e sua relação histórica com o catolicismo.
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Confira as razões históricas dessa afirmação

Na recente viagem do Papa Leão XIV à França em setembro de 2026, uma expressão pronunciada na tocante Vigília de Oração realizada com mais de 80 mil jovens no Estádio de France chamou a atenção de muita gente: “Por que a França é chamada de ‘filha mais velha ou primogênita da Igreja’, se existem países ou regiões que abraçaram o catolicismo bem mais cedo?”

A Armênia, por exemplo, converteu-se ao cristianismo por volta de 301 d.C., e o próprio Império Romano se converteu em 380 d.C., pelo Édito de Tessalônica do imperador Teodósio I.

A Armênia ainda existe como nação cristã e o Império Romano continuou existindo em sua parte oriental, conhecida como Império Bizantino, até a queda para os turcos em 1453. Então, existem pelo menos dois estados que se tornaram cristãos bem antes da França.

Razões históricas e estratégicas

A França é chamada de “filha primogênita (ou mais velha) da Igreja” por causa da conversão e batismo do rei Clóvis I (+511) ao catolicismo no final do século V. Ele era o rei dos francos, sendo o primeiro a unificar as tribos e a expandir seu território sobre todas as Gálias, o que o consagrou como o fundador histórico da França.

A ação de Clóvis consistiu na conquista militar e unificação de territórios romanos decadentes e de outros povos germânicos da antiga Gália. Ele venceu os romanos (486), conquistou os alamanos (496) e expulsou os visigodos para a Espanha (507). Ele foi o fundador da Dinastia Merovíngia, que governou a região por mais de duzentos anos.

Influenciada por sua esposa, Santa Clotilde se converteu e se fez batizar em Reims (cidade também visitada por Leão XIV) por volta de 496 d.C., pelo bispo São Remígio.

Diferente de outros povos germânicos que adotaram o arianismo, considerado herético pela Igreja, Clóvis escolheu a fé católica romana. Isso transformou o reino franco no principal aliado e defensor do papado no Ocidente.

O título simbólico consolidou-se ao longo dos séculos com o apoio mútuo entre a monarquia francesa e a Igreja, haja visto, por exemplo, o relacionamento de dependência entre o pontificado e o imperador Carlos Magno, que levou à criação do Sacro Império Romano no século VIII.

Por isso, a França sempre teve um papel ímpar na história. Na Idade Média, tal foi o desempenho heroico dos francos nas cruzadas, que elas foram chamadas “Gesta Dei per francos”, as proezas de Deus por meio dos francos. Tradicionalmente, os reis da França eram coroados pela Igreja e recebiam o título oficial de “Sua Majestade Cristianíssima”.

Turbulências no caminho

Chegou, porém, um momento da história em que o relacionamento da Igreja com a França assumiu um caminho de grande turbulência, começando com os filósofos iluministas, que manifestaram um desprezo pela Igreja, deplorando sua ação e influência, bem como chegaram a desafiar sua autoridade dogmática.

O Iluminismo francês transformou a Igreja Católica em seu principal alvo de críticas. O filósofo francês Voltaire cunhou a frase “Écrasez l’infâme” (“Esmagai a infâmia”), referindo-se à intolerância e à superstição associadas ao clero católico. Eles não eram necessariamente ateus (Rousseau e Voltaire eram deístas), mas defendiam a razão contra o dogma e a separação entre a Igreja e o Estado.

Foram eles que pavimentaram o caminho da Revolução Francesa (1789-1799), que tanto mal causou à Igreja, marcando uma ruptura profunda e violenta entre o Estado secular e a Igreja, que detinha enorme poder político, social e econômico no Antigo Regime.

Em 1789, o governo revolucionário nacionalizou todas as propriedades da Igreja para pagar a dívida pública. Com a Constituição Civil do Clero (1790), a Assembleia Nacional subordinou o clero ao Estado, sendo obrigados a jurar fidelidade à nova constituição, o que dividiu os sacerdotes entre os constitucionais (que aceitaram a lei) e os refratários (fiéis ao Papa, que foram perseguidos).

Durante o período do Terror (1793-1794), o governo tentou erradicar o catolicismo. Igrejas foram fechadas, saqueadas ou destruídas, o calendário gregoriano foi substituído e criaram-se cultos seculares, como o Culto da Razão e o Culto do Ser Supremo. Milhares de padres foram exilados ou executados por se recusarem a obedecer às leis revolucionárias.

O conflito começou a arrefecer com a assinatura da Concordata de 1801, quando Napoleão Bonaparte restabeleceu relações pacíficas com a Igreja, devolvendo certa liberdade de culto, embora o Estado mantivesse o controle e o caráter laico consolidado no período.

Sua relação com a Igreja Católica foi pragmática, marcada por acordos políticos iniciais e graves conflitos de poder posteriores, porque via a religião como uma ferramenta essencial de controle social e moral pública (“uma sociedade sem religião é como um navio sem bússola”).

O catolicismo deixou de ser a religião oficial do Estado, mas foi reconhecido como a “religião da grande maioria dos franceses”. Em troca, o Papa aceitou a perda de antigas propriedades e a forte subordinação do clero ao Estado francês.

Em 1804, em sua coroação como imperador na Catedral de Notre-Dame, tomou a coroa das mãos do Papa Pio VII e se auto-coroou, simbolizando que seu poder vinha de sua própria conquista e não da Igreja.

As tensões explodiram quando Pio VII recusou-se a aderir ao Bloqueio Continental contra a Grã-Bretanha e a reconhecer anexações territoriais. Em retaliação à excomunhão que sofreu, Napoleão ordenou a prisão do Papa em 1809. Pio VII permaneceu em cativeiro na França até 1814, enfraquecendo a imagem de Napoleão perante uma Europa ainda profundamente religiosa.

Nesse período, a Igreja se aproximou mais do reino da Áustria, que assumiu a missão de protetora da Igreja.

Após o trauma da Revolução Francesa, o século XIX foi marcado por uma tentativa de reconstrução da identidade católica e pelo surgimento da sociologia moderna. O século XX, por sua vez, produziu o Renascimento Católico (Renouveau Catholique) e alguns dos maiores filósofos deste tempo, como Jacques Maritain (1882–1973) e Pierre Teilhard de Chardin (1881–1955), padre jesuíta, paleontólogo e filósofo que tentou reconciliar a teoria da evolução científica com a teologia católica. Pavimentaram a estrada e a França voltou a dialogar com a Igreja, retomando as relações de antes.

Essa situação de diálogo e bom relacionamento seguiu até as décadas de 1960-1970, quando o país começou a viver uma fase de intensa secularização que levou à perda da influência social da Igreja, mas, ao que parece, esse movimento começa a arrefecer.

Algumas diferenças políticas levaram o Papa Francisco a não programar nenhuma viagem ao território francês, mas o Papa Leão retoma agora o caminho, e as grandes concentrações humanas em todos os atos e o número de catecúmenos que voltou a crescer nos últimos anos indicam, quem sabe, uma nova retomada e um reflorescer do catolicismo no país.

Leia também: França, um país tradicionalmente católico em vias de transformação

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